O louco de teu louco 1998. O cardo, o aguerrido cardo que floresce na Sexta-feira Santa, sabe quem sabe, devorava os homens que o colhiam e as resedas, de florinhas vulgares e amarelas eram responsáveis pela agonia das sezões e das febres de Outono. Porque cada ser humano tem o seu duplo vegetal. Quando a planta floresce e ganha sementes, vai roubar energias ao seu duplo que entra em quebranto ou convulsões. A crença era médica e popular.

O desconhecido como o invisível foi sempre fértil em malefícios. E a morte, como um convidado de pedra aguarda, plácida como o destino e dura como o mármore, que as armadilhas da Natureza desatem o que tem que ser. E a lei da semelhança que enreda os homens e a linguagem, associando os nomes e as coisas, e é tão perigoso tropeçar no trovisco, onde se deita o paludismo alheio, como é benfazejo recolher o musgo que nasce no crânio do homem que morreu violentamente.

Javier Diaz colocou-se no século XVIII, quando o sincretismo do saber se casava com o sentimento estético e a racionalidade crítica.

E a botânica, ciência que cobria de belas vinhetas os museus do saber, delirava explicações científicas que encenavam milénios de terrores. Porque a época conhecia o medo dos esporos, dos eflúvios e das emanações. Sabia da loucura que transbordava das ruas e das famílias, receava esses sintomas de exclusão que tocavam a todos e se encontravam no uso da quina e do ópio.

As imagens de Javier Diaz recriam as origens de uma modernidade onde a estátua da razão também pode ser a da morte e a minúcia da descrição um dicionário de horrores e preconceitos. Porque, sabemo-lo bem, essa presença adivinhada representa o início do conhecimento e do controlo do corpo por essa mesma razão e pela ciência. É então que a loucura se desterra das plantas e dos desígnios de Deus para o corpo do homem.

Maria do Carmo Serém, Maio 1998

Javier Diaz (Bilbao 1951) sentiu necessidade de explorar e analisar a realidade através da fotografia. Os seus trabalhos são fruto de um estudo e de uma investigação que tendem a plasmar na imagem o domínio misterioso da rebelde imaginação. No caso das obras apresentadas nesta exposição, a origem encontrasse na débil fronteira entre o cordo e o disparatado que rege todo o processo criativo, conseguindo deambular pelo outro lado e pondo á nossa disposição esse minucioso diário de bordo. Já no renascimento se falou sobre a nef des fou, a nave dos loucos, que os conduzia em busca da razão. Javier Diaz obteve a sua passagem que o levou por dois caminhos fraternais: a água e a botânica.

A água e a loucura estão indelevelmente unidas no tempo. O louco era submetido a banhos prolongados em água fria a fim de se lhe resgatar a razão, tentando contrabalança-la com esse elemento aquático e escuro da enigmática e sombria desordem mental. Tratava-se de um esforço para recuperar um caminhante despistado da sua realidade aquosa e esotérica. O espelho, no seu componente aquático, é outro dos símbolos da loucura, no qual se reflectirá secretamente, para quem se olhe através dele, o sonho da presunção.

A máquina fotográfica serviu de espelho mágico, no qual as pessoas se descobrem a si mesmas, não de imediato mas num jogo de espaço-tempo que as translada a esta exposição.

Através destas palavras chegamos aos olhares perdidos e descentrados das personagens submergidas nas banheiras. Todos eles nos mostram com uma pretensa frialdade cromática a sua conexão com o mundo próximo da sem razão… cúmplice proximidade que dificilmente nos evita um arrepio íntimo e familiar.

Por outro lado, as máscaras fragmentadas e catalogadas com pormenor escusam-nos a visão directa dos rostos escondidos atrás das massas moldadas, mas detêm rictos contundentes com a ausência de rasgos tranquilizadores como os olhos, as bocas ou os cabelos, conseguindo assim transformar o caos da doença na catalogação criteriosa da vegetação. Como dizia Syndenham: “há que reduzir todas as doenças a espécies precisas, com o mesmo cuidado e a mesma exactidão que os botânicos fizeram com o tratado das plantas”.

Pois bem, Javier Diaz propõe-nos o seu herbanário particular, no qual, de uma maneira ou de outra, todos estamos incluídos na alquimia, no desassossego, excentricidade, estupidez, fome canina, furor uterino, impaciência, mucosidade, saúde, superstição, vício, visões….


Alfredo Hervias y Mendizábal (1963-2010)

Correspondente em Portugal do El periódico del Arte

 

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